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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

anotações planaltinas

Minha mais nova estada na capital federal está chegando ao fim. 10 dias que passaram mais rápido do que eu imaginava. Mas na medida do possível deu pra aproveitar o tempo, e a cidade. Dessa vez com um diferencial, eu pude "viver" Brasília, e não só ser mais um turista.

(as famosas faixas de pedestre de Brasília; aqui é só acenar que os motoristas param.. bom, pelo menos uma parte deles)

Tirando uma gripizinha que me deixou uns três dias detonado, consegui desenvolver uma certa rotina, o que implica em andar de busão pela capital federal, uma verdadeira aventura medieval. Aliás, taí um grande problema local, se você não tiver um carro ou moto, tudo fica muito mais complicado. Brasília não tem calçadas, ouso arriscar que uns 60%, 70% das ruas aqui não possuem calçamento lateral, é tudo gramado e/ou jardins. E o transporte público é pra lá de deficitário. Se virar à pé por aqui é bem escroto, mas eu consegui.

(perambulando..)

Em termos eminentemente humanos, Brasília "pulsa" na tríade formada por sua famosa rodoviária central e os dois shoppings laterais que a circundam. Esse foi o meu circuito: Super Quadras Asa Norte - Shopping Pátio Brasil / Brasília. Ali deu pra conhecer mais do cerne urbano da cidade, as pessoas, as fisionomias, o "viver" brasiliense. Uma mistura muito interessante de "caras" nordestinas, indígenas e "sul-caucasianas", tudo ali na bagunça do cruzamento do Eixo Monumental com o "Eixão" Norte-Sul. Ali eu enxerguei realmente Brasília, com um incipiente cosmopolitismo que lembra vagamente São Paulo. Até "emos" eu visualizei perambulando pelos shoppings locais.

(enchendo o bucho.. com picadinho de bode)

Enfim, essa viagem mais longa me deu a oportunidade de conhecer o lado urbano da capital do país que não está na propaganda nem no esteriótipo. O "tempero" humano que normalmente é eclipsado pela grande e magnífica arquitetura local. Pude constatar finalmente que a propalada "frieza" do centro do poder nacional fica ali mesmo, nos gabinetes e prédios burocráticos, nas grandes, opulentas e vazias mansões que circundam o lago Paranoá. Brasília "pulsa" no seu núcleo. Com pessoas de todos os tipos e estirpes buscando seu lugar ao sol (e que sol!), vivendo, sorrindo, gritando, cochichando, fofocando nos pontos de ônibus, nas esquinas, nas pequenas lojas. Brasília é humana, e confesso que isso foi uma bela e entusiasmante descoberta.

(na prosa com "Kubicha" e sua adorável e recatada esposa Sarah..)

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

ano novo no jardim


Começando o ano no jardim fantástico da Dona Olga. Onde habitam sapos roncadores invisíveis (os quais só a Dona Olga enxerga), borboletas psicodélicas, formigas artistas plásticas, uma floresta gigante de trevos de quatro folhas, e muitos bons fluidos.

domingo, 16 de setembro de 2007

blogueiro viajante: no palácio

É clássico. Volta e meia você assiste na TV uma notícia do tipo: "o deputador/senador/ministro fulano de tal se reuniu informalmente com o Presidência da República na noite de ontem no Palácio da Alvorada para discutir os rumos/planos/estratégias de...", e por aí vai.


Eu sempre fiquei imaginando como seriam essas reuniões, o que se falariam nelas, como as pessoas se comportariam. Bom, acho que essa é uma curiosidade de todo cidadão que não é alienado e se interessa pela parte boa da política (ela existe).


Nessa minha recente passagem por Brasília tive a oportunidade de visitar e conhecer o Palácio da Alvorada (residência oficial do representante nº 1 da nação). Atravessar aquele gigantesco gramado, observar os salões, as salas de recepções, reuniões. Passear por aquele singelo "quintal" com um jardim belíssimo. A vista para o Lago Paranoá. Tudo muito idílico, eu dira, mas ao mesmo tempo gelidamente épico. Um clima pesado de formalidade e uma certa frieza que se misturam com um ar bucólico, como se fosse uma gigantesca chácara de algum maluco arquiteto visionário (o que não deixa de ter um fundo de verdade).


Conforme ia passando pelos salões, ficava imaginando o quanto de história existia ali, o quanto de história passou por aquelas cadeiras, mesas, livros, estátuas, presentes (alguns bem exóticos, aliás). As idéias que foram formuladas, os acordos (e os desacordos) fechados, os rumos que foram tomados, os acertos (e cagadas) que definiram a trajetória do país inteiro. Paredes que "ouviram" e presenciaram o destino de milhões de pessoas.


Nós estamos tão acostumados a olhar a política como algo menor que não nos damos conta disso. Vivenciar esses momentos de contato direto com os ditos aparatos do poder nos traz uma nova perspectiva além daquela que vemos pela mídia (muitas vezes viciada). Uma visão mais humana, pode-se dizer.


É lógico que tinha gente ali que não via nada além de um prédio bonito, especial, em um local agradável, bom pra se tirar fotos. Porém, uma parada para olhar os ráios do sol surgindo por detrás daquelas colunas e vigas magistralmente curvilíneas nos faz tomar ciência do quão simbolicamente forte é a existência daquele palácio para a identidade do nosso querido bebê que se encontra deitado eternamente em berço explêndido.


curiosidade: segundo os guias do local, os traços das colunas do palácio foram inspirados nas redes que existiam nas sacadas dos antigos casarões das fazendas do interior do país.

terça-feira, 11 de setembro de 2007

blogueiro viajante: Independência ou Morte!


ordináriooooo, marche!!.. rup.. rup.. rup.. rup.. rup.. rup..



rup.. rup.. rup.. rup.. rup.. rup.. rup.. rup..



rup.. rup.. rup.. rup.. ooooooooooooup Brasil!!!.. rup.. rup.. rup.. rup..



rup.. rup.. rup.. rup.. rup.. rup.. rup.. rup..



rup.. rup.. rup.. rup.. ooooooooooooooooup Brasil!!!.. rup.. rup.. rup.. rup..



iscatabum!!..



senhoras e senhores.. o armamento das Forças Armadas da República Federativa..



.. do Brasil!!



* Brasília, Esplanada dos Ministérios, 07 de setembro de 2007.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

blogueiro viajante: Bon Odori

Justificando o lapso de ausência por aqui, o blogueiro local está com o "pé na estrada" a mais de duas semanas. Aproveitando a "mini-férias" para rever amigos e familiares distantes e queridos, e também para curtir os eventuais acontecimentos culturais locais.

Eu já tinha ouvido falar algo sobre essa festa nipônica. Na minha mais recente viagem a Urânia City, pude participar de uma das celebrações.


Segundo a minha assessora para "assuntos enciclopedianos", Dra. Wikipedia:

"..é um festival que ocorre anualmente durante o verão, sempre após o pôr do sol, pois prevalece a crença de que os espíritos somente saem durante a noite. Cada localidade escolhe uma data específica para fazer os seus festejos durante esse período. O Bon Odori é um festival de tradição budista que tem as suas origens na China. Durante o Bon celebram-se as almas dos antepassados com danças em grupo e levando-se lanternas acesas saudosamente lembrando da sabedoria dos antepassados. Apesar de análogo ao dia dos finados, durante o Bon são tocadas músicas tradicionais alegres e, sobretudo, predomina um clima de jovialidade, gratidão e participação geral."


Eu sempre me enturmei bem em eventos orientais, até por uma questão de afinidade filosófico-comportamental. Dessa vez porém, senti-me mais à vontade que o normal. Como dito ali em cima, apesar de ser um ritual, digamos, fúnebre, o clima é de pura empatia e confraternização.

Uma típica festa japa, a qual sempre tive contato do tempo em que morava em Suzano-SP (talvez a cidade com maior concentração por metro quadrado de japoneses do hemisfério ocidental), com aquela "indústria coletiva" que eles montam de uma forma espetacular pra produzir as iguarias típicas da terra do sol nascente, aquele clima todo de uma gigantesca "gincana social" que só eles sabem criar.


O diferencial (que eu não conhecia) eram as danças, a celebração em si. Achei muito legal. Mais legal ainda que eu pude participar da dita cuja como parte de uma delegação (no caso, da cidade de Urânia). A festa (nesse caso) baseia-se na "competição" entre as várias delegações das cidades da região (na época dos festejos -agosto-, cada cidade sedia o evento em um final-de-semana diferente do mês). Elas se reúnem, apresentam-se ao público, e partem pra dança. Todos vestidos à caráter (kimono; eu também ganhei um), executam as três primeiras danças. Em seguida, a "pista" é liberada ao público em geral, pra quem quiser dançar e acompanhar.


Bom, eu não arrisquei dançar. Junto com a amiga Cris (já experiente no assunto, e quem me convidou pro festejo), saímos do "palco" antes do começo do repertório. Mas a dança é bem simples, qualquer um aprende rápido.

Aliás, o que eu achei mais bonito e interessante na festa toda foi essa questão do aprendizado. A dança acontece em círculos, com os músicos no centro (numa parte mais alta), enquanto o povo vai dançando, dando voltas, com os mais antigos (os velhinhos), por fora, e os mais novos (a criançada), por dentro, formando uma "espiral geracional" que acaba se tornando uma bela metáfora para o caminho da nossa existência, que, por sinal, é anti-horária (detalhe importante).


Subi as escadas laterais do salão e pude observar essa bela imagem de cima. Algo como um "vórtice espiritual" expelindo energia vital de dentro pra fora. Foi o grande "instantâneo" que ficou na minha cabeça de tudo que vi lá.

Bom, eu já "pagava pau" de uma forma geral para a filosofia de vida japa. A cada dia que passa viro um entusiasta maior do "japonese way of life". Críticas? Sim, fiquei sem yakissoba. Mas a gente tem que dar um desconto, haja macarrão pra tanta gente.

obs: o "Bon" que eu fui aconteceu em Fernandópolis-SP.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

blogueiro viajante


Teacher said
I had my head in the clouds
They directed
I suspected
Disconnected
Had it my way

On the street
I had my feet on the ground
Stood corrected
Well protected
Resurected
Had it my way

I've got my feet in the clouds
Got my head on the ground
I know that I'm not a square
As long as they're not around

But I find it very very very very very very hard
Yes I find it very very very very very very hard

Love is fab
It's like a stab in the the heart
Hidden treasure
Made to measure
For my pleasure
Had it my way

I've got my feet in the clouds
Got my head on the ground
I know that I'm not a square
As long as they're not around

And I find it very very very very very very hard
And I find it very very very very very very hard
Oh I find it very very very very very very hard
Yes I find it very very very very very very hard

I've got my feet in the clouds
Got my head on the ground
I know that I'm not a square
As long as they're not around
But I find it so hard I find it so hard

("Feet in the Clouds" - Paul McCartney)

segunda-feira, 14 de maio de 2007

"por favor, algum médico entre os passageiros?"

Minha volta de viagem de Brasília dessa vez foi assaz emocionante. Tudo começou na capital federal, onde o meu vôo atrasou mais de meia-hora. Estava programado pra sair às 13:45h. Pelo que me lembre eram 14:20h e eu não tinha embarcado no avião ainda. Pelo menos me garanti, pois saí um pouco atrasado da casa dos meus pais pro "check-in" de embarque e estava com medo de perder o dito cujo (eu ainda demoro pra assimilar que embarcar em um avião é diferente de embarcar em um ônibus).

Dessa vez peguei um piloto arrojado (ou imprudente, dependendo do ponto-de-vista) que logo que saiu do chão fez uma curva pra direita que deu calafrios. Parecia que estava pilotando um caça. Mas o cara era bom (descobri depois vendo o telejornal que vários pilotos pousaram vôos destinados ao Congonhas em Guarulhos porque estavam com medo de pousar na pista auxilar do primeiro - a pista principal estava em reforma e causou mais um pequeno caos no tráfego aéreo paulistano), não arregou de pousar na pista traiçoeira do Congonhas.

Justamente por causa dessa bagunça no Congonhas, chegando em SP, o piloto teve que ficar sobrevoando a cidade por uns 15 minutos até conseguir autorização pra pousar. Resultado: teve gente que começou a passar mal lá em cima. Enquanto degustava uma saborosa barrinha de goiabinha, a aeromoça atacou no fone: "senhores passageiros, sua atenção por favor, se houver algum médico presente favor comparecer à traseira da aeronave portando o seu CRM...".

Na hora, surgiram dois pensamentos na minha cabeça. Primeiro: e se alguém sofresse algum mal súbito sério em pleno vôo e não houvesse médico a bordo? Eu não tinha me dado conta de que não existem médicos na tripulação. Segundo: eu fiquei imaginando a bizarra hipótese da solicitação de um advogado lá nas alturas (??), algo no estilo.. "senhores passageiros, sua atenção por favor, se houver algum advogado presente favor comparecer...". Enfim, deixa pra lá (pensar besteira é uma arte).

Eu vi que o médico foi e voltou lá pra atrás. Não sei bem se ele atendeu algum dos passageiros ou não. Só sei que logo após o pouso ele foi solicitado denovo, dessa vez com mais veemência: "por favor, algum médico entre os passageiros?". E dessa vez não foi pelo fone, foi no gogó mesmo. Uma moça que estava sentada um pouco atrás de mim começou a respirar com dificuldade e a passar mal.

Mas o que mais me impressionou foi a insensibilidade geral dos passageiros com a situação. Enquanto desenrolava o atendimento médico o avião estava taxiando e acoplou pro desembarque. Pelo procedimento, a moça teria que ser retirada antes dos demais passageiros, por motivos óbvios. Mas isso causou uma comoção à bordo. Um político de relativo renome que estava à bordo levantou a voz e começou a reclamar que não havia motivos pra segurar os passageiros e pra toda aquela demora (justamente quem tinha que dar o exemplo, patcha que la paria!). Isso com o apoio de todos os demais passageiros, que começaram um murmurinho e a falar mal dos tripulantes (essa é a elite do nosso maravilhoso país, hein?).

Nesse ínterim, mais uns 10 minutos de atraso. Saí do avião e já eram mais de 16:20h. E fui curtir o friozinho paulistano, pegando o busão urbano (mais 1 hora de poltrona) de volta pra casa. Talvez tivesse motivo pra reclamar de tudo isso, mas não me senti assim. Só fiquei pensando naquela mocinha que respirava fundo (com dificuldade) e gemia no fundo do avião. Soube depois que ela ainda teria que encarar mais algumas horas de viagem até Piracicaba.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Urânia City: Tatooine - 20°14'46'' sul, 50°38'35'' oeste

Um relato pela nativa e moradora ilustre, mestre jedi Cristina Traskine. Aqui: She´s so high.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Urânia City: Tatooine, here I am

(jardim da morada de mestre Traskine, in a sunny sunday)

Por enquanto, só pra registrar: promessa é dívida, e cá estou eu. Postando ao som da buzina do trem carregado de soja que passa na rua de trás, dos pássaros cantando na bela árvore que registra tudo no portão frontal, da voz do Fran Healy cantando "Side" ali atrás na televisão, do cheiro gostoso do almoço caseiro sendo preparado, e do sentimento especial da amizade simples, profunda, verdadeira, e sem limites. Como diria meu pai, a vida é bela. E não há como botar essa afirmação em discussão. E eu sou apenas um aprendiz, no mundo das vivências autênticas.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

no planalto central: a festança

Empty Spaces participou da festança de comemoração do aniversário de fundação da cidade de Brasília, dia 21. Seguem alguns cliques:

(tropeiros descendo a Esplanada dos Ministérios)


(versão turista, no olho do furacão)


(seguindo em direção aos palcos montados na esplanada; vários shows, mas eu só assisti Paralamas do Sucesso; apesar da equalização irregular do som e algumas paradas não programadas, boa performance)


(show pirotécnico no fim de noite)


(faltou um pouco de organização, temos que admitir; os fogos começaram com umas 3 horas de atrasado)


(mas compensou, já estávamos indo embora quando começou o dito e tivemos uma vista privilegiada)

sexta-feira, 20 de abril de 2007

no planalto central: o vôo e as primeiras impressões

Cá estou eu, reportando ao blog diretamente do planalto central, mais especificamente da bela capital federal Brasília. O olho do furacão político tupiniquim. Como diz aquela famosa frase, onde está o seu, o meu, o nosso dinheirinho (a maior parte, pelo menos). Mas eu não estou aqui pra fazer política (nem tenho muito talento pra isso), e sim visitar meus queridos ascendentes. Essa é uma das funções da minha incipiente vacância.

Eu já havia viajado de avião antes, mas era diferente. Não dá pra comparar um Cessna monomotor com um Boeing que carrega mais de 100 passageiros. Bom, até dá pra comparar. No fundo, é a mesmo coisa, o que muda é a escala. Ambos balançam feito gelatina, ambos tremem quando ficam "nervosos" e decolam, e ambos possuem boas asas (isso é o mais importante).


E lá fui eu pra minha primeira experiência de vôo "em larga escala". Em suma, é algo muito parecido com viajar de busão (uma especialidade rotineira pra mim), fazendo as devidas adaptações. A principal diferença é que, no busão, você pode chegar emcima da hora, faltando uns 3 minutos pra partida, e embarcar numa boa. Com um vôo de Boeing, a coisa já é mais complicada. Você se apresenta com mais ou menos 1 hora de antecedência para o "check-in", depois com meia-hora de antecência para o "pré-embarque" (naquela salinha prazerosa de espera pelo vôo), e depois mais uns 10 minutos pro povo da companhia se organizar e te "guiar" até o avião. A impressão que eu tive é que todo vôo comercial é como uma "mini-excursão" organizada pra atender aquela centena de incautos pagantes.

Voar é agradável. Mas o mais interessente foi observar as pessoas e fazer uma pseudo análise psicológica de butiquim enquanto transcorria a viagem. As pessoas entram, sentam em suas respectivas poltronas, e conversam normalmente, como num passeio coletivo qualquer. Mas é só o comandante acionar o auto-falante pra se apresentar e arrolar o "manual de instruções" do vôo que o clima muda completamente. Um silêncio temeroso impera. Como se inconscientemente todos se dessem conta de que suas vidas agora estão nas mãos daquele sujeito "sem rosto" de sotaque carioca sentado lá na frente.


A aeronave sai pra taxiar na pista, posiciona-se pra decolagem, e decola. Tudo no mais mortal silêncio. Enquanto o avião sobe (e bota subida nisso), um sujeito começa a brincar com os controles da poltrona, outro fica que nem criança ligando e desligando a iluminação interna, outro fecha os olhos e agarra-se na poltrona como se aquela fosse a última viagem, e outro lá na frente pede algo pra beber (coitado do comissário de bordo). Esse climão de pré-velório auto aplicado dura uns 10, 15 minutos pós-decolagem. Tempo suficiente pro piloto subir, ajustar os controles pra rota automática, e religar o auto-falante: "Senhoras e senhores, aqui quem fala é o comandante fulano de tal, atingimos altitude de cruzeiro, e blá, blá, blá.. (...) desejamos a todos uma boa viagem.". Desse ponto em diante, tudo volta ao normal. Recomeça o falatório e segue a viagem.


Lá do alto, a placidez impera. Enquanto via aquelas belas imagens do nosso planetão lá embaixo, comecei a me lembrar do filme "2001, Uma Odisséia no Espaço". E o clássico "Danúbio Azul" começou a ressoar intuitivamente no meu ouvido. Nessa hora, deixei meu Mp3 de lado (até porque não tinha essa música nos meus arquivos) e botei a imaginação pra funcionar. Do nada, trezentas mil coisas começaram a passar pela minha cabeça. É interessante como nesses momentos diferenciados "pensamentos ontológicos" surgem sem muito esforço. E você começa a refletir sobre sua razão de existência ( e a dos outros também), o porquê disso, o porquê daquilo. E por aí vai.


Quem te traz de volta a realidade é o comissário de bordo: "Senhor, gostaria de comer ou beber algo...?". Lá vou eu me encher de amendoim e pepsi-cola. Aliás, não sei porque, lá nas alturas, eu passei por uma necessidade violenta de ingerir sal. Conclui que deveria ter algo a ver com a alteração de pressão (o único real incômodo que eu senti de leve em todo o percurso), ou era fome mesmo.


Chegando perto de Brasília, o avião começou a descer (o processo mais interessante de toda a viagem). O bicho vai perdendo altitude por "camadas". Sendo que a passagem de um estágio pra outro sempre vinha com uma leve turbulência que dava um pouco de adrenalina à toda aquela "formalidade" dos níveis extratosféricos (bom, nós chegamos perto de lá). Já bem perto do chão, os primeiros flaps são acionados formando aquela "calda de ar" envolta das asas. O piloto anuncia o pouso e pede pra tribulação se preparar. O silêncio coletivo do "people" retorna. A tensão máxima acontece quando o reverso é acionado, e todo mundo "trava". Mas logo, tudo se dissipa.


Já no chão eu avisto, em um hangar relativamente discreto na lateral da pista, o avião presidencial. Nesse momento dei-me conta de onde realmente estava, e de como tudo estava estranhamente calmo. Eu sempre tive a imagem de Brasília como um lugar agitado, frenético, como a capital paulista. E não é assim. O que não me autorizou a concluir que fosse um lugar pacato, muito pelo contrário. Já na saída do aeroporto você sente um pouco do "cheiro do poder", com engravatados ao celular dando e retirando ordens. Isso tudo misturado com um leve "cheiro de mato", como se eu estivesse também em uma pequena cidade lá do interior paulista. A primeira impressão que eu tive foi de um pouco de esquizofrenia socio-urbana. Porém uma esquizofrenia muito gostosa e interessante de se desvendar.