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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Para onde vai a Folha de S. Paulo? (3)

Mais uma para a série sobre o tipo de jornalismo que a Folha de São Paulo anda produzindo nos últimos tempos. Você lê um baita artigo do colunista Clóvis Rossi na segunda página do jornal (A2) e cinco páginas à frente (A7) se depara com isso:

(clique na foto para uma melhor visualização - FSP - 22/07/2009, p. A7)


(clique na foto para uma melhor visualização - FSP - 22/07/2009, p. A7)


(clique na foto para uma melhor visualização - FSP - 22/07/2009, p. A7)

Bom, eu não fiz quatro anos de comunicação social, posso não ter o melhor gabarito técnico pra analisar uma reportagem jornalística, mas na minha opinião esse é um exemplo clássico de como uma notícia objetiva pode ser tendenciosa, ou melhor, como a construção de uma notícia determina a interpretação que se quer passar do fato.

Reparem na construção do título e o tempo verbal adotado. Depois reparem na informação que vem nos subtítulos e no corpo do texto.

De duas uma: ou temos o dedo da chefia na edição final da reportagem ou o próprio jornalista assumiu uma posição clara no que tange à interpretação política do fato.

E o mais interessante é ver a versão online da mesma notícia, digamos, um pouco mais neutra até certo ponto:


Petrobras contratou firma com sede em canil

Empresa recebeu R$ 4,2 mi em 2008; projeto foi autorizado por gerente demitido por suspeita de desvio.

LEONARDO SOUZA
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

A Sibemol Promoções e Eventos, que declara como seu endereço o local onde funciona um canil, recebeu da Petrobras no ano passado R$ 4,2 milhões. Ao todo, a família dona da Sibemol e de duas outras empresas embolsou R$ 12,5 milhões da estatal em 2008, em contratos fechados sem licitação.
Os projetos foram escolhidos e autorizados pelo então gerente de comunicação da área de Abastecimento, Geovane de Morais. Conforme a Folha revelou no mês passado, ele foi demitido no começo deste ano por justa causa por suspeitas de desvio de recursos, entre outras irregularidades.
Há casos de serviços pagos por Morais e não prestados. Ele gastou em 2008 R$ 120 milhões a mais do que previsto no orçamento de sua área, sem autorização formal.
A Petrobras informou que ainda está analisando se há irregularidades nos contratos com a Sibemol e as outras duas empresas da família Brandão. A estatal acrescentou que enviou o caso de Morais ao Ministério Público Federal e à Controladoria Geral da União.
Raphael de Almeida Brandão, seu irmão, Luiz Felipe, e a mãe deles, Telma, são donos da Sibemol, da R.A. Brandão Produções Artísticas e da Guanumbi Promoções e Eventos. Eles não foram localizados pela Folha ontem.
Com sede no Rio de Janeiro, as três empresas foram contratadas pela Petrobras para prestar serviços variados, como apoio a projeto social em Minas Gerais, festival de cinema em Friburgo (RJ), locação de mobiliário em evento em Mossoró (RN) e serviços de produção de Carnaval em Salvador.
Conforme o jornal "O Globo" revelou ontem, no endereço declarado pela Sibemol funciona um canil onde há 60 cachorros, além de 200 gatos. As outras duas empresas não funcionam nos endereços informados à Receita Federal.
Os contratos com as empresas dos Brandão assim como os demais projetos autorizados por Morais foram objeto de duas sindicâncias na Petrobras.
A primeira apuração concluiu que o ex-gerente havia desrespeitado normas de contratação e de gastos. Outra comissão apontou indícios de desvio de recursos. A Petrobras decidiu pela demissão de Morais, mas ainda não efetivou o desligamento por ele estar de licença médica desde o final do ano passado.
Morais é ligado ao grupo político petista oriundo do movimento sindical de químicos e petroleiros da Bahia.

(Folha de São Paulo Online: Petrobras contratou firma com sede em canil) (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2207200910.htm)


No calhamaço de papel a Petrobrás "paga" em letras garrafais, já no ciberespaço a Petrobrás "contratou" e "recebeu". Além de terem sido acrescentados três páragrafos que não constam da versão impressa, pelo menos eu com a minha miopia não vi (destaquei em negrito). Porque essa mudança?

Notem que a notícia é a mesma, não se trata de outra edição da Folha Online, mas sim do jornal Folha de São Paulo exposto em versão digital na rede.

Queria o pitaco dos amigos jornalistas que frequentam o blog. Apesar dessas escrotices, no conjunto, ainda acho a Folha um dos melhores e mais gabaritados meios de comunicação do país. De qualquer maneira, é dose ter que ficar lendo isso.

É uma pena que o jornal aparentemente esteja investindo numa linha jornalística desse naipe pra manter uma "platéia fiel" de assinantes. Pode até manter um naco, mas vai eliminar uma razoável parcela com um mínimo de senso crítico.

Será que eu sou muito chato ou vocês concordam comigo que é jornalismo ruim mesmo?

sexta-feira, 3 de julho de 2009

revisar é preciso

Nós blogueiros "amadores" não temos o costume de revisar com frequencia e de forma detalhada nossos textos, mas precisamos mudar essa atitude.

No meu último texto aqui no blog, sobre a situação política do Sarney, errei na colocação de um verbo, por puro ato falho, e o texto mudou totalmente de significado. E pior, significado errôneo.

Disse que se o Sarney renunciasse ao cargo, o vice-presidente do Senado iria assumir o cargo. Enquanto na verdade, neste caso, seriam convocadas novas eleições. O verbo correto na verdade era licenciar, onde nesse caso haveria a sucessão dita lá no texto. Só fui me dar conta do erro hoje, três dias depois de ter publicado e "passado o olho" no texto no mínimo umas cinco vezes.

Pode parecer besteira mas, por sermos meras "formiguinhas" do universo cibernético opinativo, temos a tendência a achar que as opiniões que emitimos não tem grande valor ou não geram efeitos.

Com um mínimo de reputação e organização que seu blog tenha ele irá repercutir, mesmo que pra um pequeno grupo de espectadores. E essas pessoas podem (e é muito provável) passar essas informações pra frente.

Temos que ficar ligados. Pois nosso texto mal ou não revisado pode induzir as pessoas a erro, e fazê-las entenderem a mensagem de forma completamente diversa da intenção original. Na internet, a cagada feita viaja na velocidade de uma diarréia.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

sobre a exigência do diploma de jornalismo para o exercício da profissão

Por maioria, o Plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, nesta quarta-feira, que é inconstitucional a exigência do diploma de jornalismo e registro profissional no Ministério do Trabalho como condição para o exercício da profissão de jornalista. - Notícias STF

A repercussão sobre o assunto foi grande semana passada. E a polêmica também. Afinal, jornalismo é uma profissão que necessita de bacharelado para ser exercida ou não?

Embora a decisão dos Ministros, ao meu ver, não tenha sido muito bem fundamentada, com o nosso caro Ministro Gilmar Mendes chegando a fazer comparações toscas de jornalistas com cozinheiros (nada contra a classe dos cozinheiros), eu concordo com ela no mérito.

Independentemente da questão da restrição à liberdade de informação e expressão, o grande pilar das argumentações dos Ministros (artigo 5º, incisos IX e XIII, e artigo 220 da Constituição Federal), eu diria que há um pano de fundo na questão que não foi muito bem analisado nem explicitado pela mídia: a natureza do exercício e o objetivo da profissão.

Na minha opinião o jornalismo se posta entre aquelas profissões que poderíamos chamar de "convexas", naturalmente abertas em seu exercício e que não gravitam em torno de um centro específico de trabalho científico.

A comunicação social é generalista, atuando acima das outras ciências e "surfando" sobre elas. Tanto é assim que o cerne da formação de um jornalista é justamente uma forte base de conhecimentos gerais. Isto é, o bom jornalista é aquele que aglutina todas as outras profissões na sua. É uma característica da profissão.

Assim, não podemos falar do jornalismo como uma ciência que estrutura seu objeto, mas sim de uma estrutura que abarca e "digere" as demais ciências (essas sim seu objeto difuso).

E é interessante notar que o mercado está todo montado justamente na contramão da natureza da profissão. Por motivos que com certeza não são didáticos.

O jornalismo não deveria estar focado no bacharelado, mas sim no nível das especializações e cursos técnicos.

Nesse sentido, acho que a decisão foi correta. Com a dispensa da obrigação do diploma para o exercício da profissão é de se esperar que essa configuração prejudicial invertida se altere e que o jornalismo só ganhe em qualidade e aperfeiçoamento.

Não quero dizer com isso que as faculdades de jornalismo não tem razão de ser nem que não são necessárias, mas acho que elas não podem ser determinadas como o único "funil" daqueles que pretendem ingressar e trabalhar na área.

E nem penso que a dispensa do diploma vá provocar uma invasão de gente sem formação e vocação nas redações de jornais e afins. Pelo contrário, a dispensa do diploma deve mesmo trazer gente já formada e interessada de outras áreas para dentro do jornalismo. E melhor, irá depurar cada vez mais a qualidade dos profissionais da área, expurgando naturalmente aqueles que, com formação (específica ou não) ou sem formação, praticam o mau jornalismo (antiético e anti-técnico).

Agora, uma questão importante e que foi aparentemente escanteada pelo Supremo Tribunal Federal (não achei a íntegra da decisão ainda pra me posicionar melhor) é a que se refere a regulação eminentemente trabalhista dos jornalistas. A não necessidade de exigência do registro e do diploma não pode ser interpretada como "luz verde" para aniquilar o direito adquirido e as normas trabalhistas que regem a profissão.

Enfim, o jornalismo e os jornalistas só tem a ganhar com essa decisão. Ao contrário do que muita gente quer dar a entender, o fim da exigência do bacharelado não significa o fim da categoria profissional. É importante ter essa distinção em mente.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Para onde vai a Folha de S. Paulo? (2)

Seguindo ainda nas "peraltices" do corpo de jornalismo da Folha de S. Paulo, segue mais um exemplo das transformações e da "guinada" do padrão técnico de trabalho do jornal, os quais comentei semana passada aqui no blog. O mais interessante é que a coisa não se resume só à seara estritamente política.

Com a palavra Marcelo Tas, em seu blog, numa postagem de hoje:

A intenção desse post é divulgar “Erramos” publicado pela Folha Online na última segunda, dia 13 de Abril. O erro apontado desmonta a base de reportagem publicada pela editoria de Informática na sexta, dia 10: "Garoto propaganda da Telefônica, Marcelo Tas recebe críticas durante a pane".

Infelizmente, a maioria dos internautas só leu na matéria infectada pelo erro que ficou, durante o feriadão, por dois dias entre as mais lidas da Folha Online. Tenho certeza que poucos desses leram o “Erramos”. Portanto, se você leu a matéria e tem interesse em entender o que aconteceu, continue a leitura e por favor divulgue. Se você não leu, esqueça e pode encerrar a leitura desse post por aqui.

continua...

Segue a íntegra da postagem com a versão do Tas: aqui. Leiam, e como bem ressaltou o Prof. Tibúrcio, divulguem.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Para onde vai a Folha de S. Paulo?

Já temos aí algo em torno de 15 anos de leitura quase diária do calhamaço do senhor Otavio Frias Filho. Credito boa parte do que eu sou hoje, em vários aspectos, à companhia desse jornal. Meu gosto pela leitura, pela redação, pela escrita, meu senso crítico. Enfim, eu formei minha personalidade e tudo que vem com ela tendo a Folha do meu lado, ali em cima da mesa, do sofá, na cama, ou no cesto de revistas.

Uma das coisas que me intriga no momento é saber o que se passa, que tipo de metamorfose ocorre dentro daquele prédio idoso da Alameda Barão de Limeira no centrão da capital paulista. Pois a Folha não é mais a mesma. Não digo na sua essência, mas no seu "modus operandi".

Nunca me enganei com a propaganda de pretensa imparcialidade jornalística do jornal. Ao contrário de outros jornalões como O Estadão e O Globo que sempre adotaram de forma clara uma certa posição ideológica, a Folha sempre se postou como uma espécie de bastião de imparcialidade dentro do jornalismo nacional.

Quem mergulha com um pouco mais de profundidade no mundo das notícias e as analisa com um certo senso crítico sabe que não existe imparcialidade nem neutralidade jornalística total. Em que pese toda a dinâmica do jornalismo girar em torno do que no Direito costumamos chamar de "verdade real", ela é uma pobre coitada que fica perdida em meio ao jogo de interpretações e argumentos, sem qualquer possibilidade de ser escancarada e desnudada por completo. Sempre foi assim, e sempre será.

Digo isso porque, independentemente dessa postura editorial enviesada de um certo ar de hipocrisia que o jornal sempre teve, a Folha nunca havia abandonado um trabalho plural e investigativo de primeira linha dentro do seu corpo de jornalistas. E coloco a locução verbal no passado porque os tempos realmente são outros.

Alguns críticos dizem que a Folha apenas está deixando "cair a máscara" e que esses "deslizes ideológicos" sempre ocorreram. Concordo até certo ponto. Mas eu não sei se é só isso. Acho que houve também, de alguns anos pra cá, uma queda de qualidade mesmo, proposital ou não, visando manter a sobrevida do jornal em tempos de vacas magras do jornalismo impresso. Procurando algo como uma "sectarização" e fidelização dos leitores. Algo aliás que talvez já tenho vindo tarde.

Só isso explica uma manchete de capa do último domingo do jornal, com uma longa reportagem interna:

"Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim".

Vale a pena dar uma lida no trabalho da jornalista Fernanda Odilla e comparar com a carta-resposta divulgada pelo entrevistado no dia seguinte à publicação da reportagem: resposta do jornalista e professor Antonio Roberto Espinosa, via Blog do Luis Carlos Azenha.

Vale também uma espiada na troca de e-mails feita no início dessa semana entre o entrevistado e um jornalista representante da Folha.

Sigo lendo matinal e diariamente (sempre que possível) a dita "Folha da Manhã", mas com um leve e incipiente desgosto cerebral. A Folha está ainda a milhões de léguas de distância de monstruosidades como a Revista Veja, obviamente. Mas é bom eles tomarem cuidado e instituirem uma pausa esporádica para reflexão. Pois a coisa começou a desandar. Pesemos o que vale mais: Um punhado de leitores fiéis ou um nome (ainda digno) a ser zelado?