
(Wings)
Essa postagem é para "arqueólogos" da música pop. Então, se você não for um, não adianta perder tempo lendo.
Já andei menosprezando o trabalho deles por aqui, de leve, quando comentei sobre o "RAM". A verdade é que comecei a escutar o som e desenrolar todo o trabalho de processo arqueológico dos Wings no final do ano passado. Antes disso, só conhecia e apreciava os "hits" da banda setentista de Sir Paul McCartney, os quais tomei contato via a excelente coletânia "Wingspan", lá em 2001. Mesmo assim não era dos maiores entusiastas, comparava e preferia os álbuns solos mais intimistas do ex-beatle que eu escutava na época.
Como disse, a coisa mudou no final do ano passado, quando comecei a adquirir, um a um, os álbuns da banda. Alguns ficaram na discoteca, outros foram direto pra "lixeira" do computador. No melhor estilo 8 ou 80, os Wings produziram desde grande "pérolas" pop até escrotices sem tamanho (essas em minoria, ainda bem). Desde então, a banda se tornou (previsivelmente) uma das minhas favoritas e das mais tocadas no menu estatístico do meu Last.fm.
Resumindo, enquanto John Lennon e George Harrison postaram-se em carreiras solo "sérias" e na "1ª pessoa do singular", mister McCartney tirou "férias" e resolveu cantar na "3ª pessoa do plural" sobre as coisas boas da vida com seus amigos. Pois Wings é isso, canções leves, simples, despretenciosas, sem qualquer traço da "responsabilidade sonora" dos Beatles. Eu diria que foi um passo ousado, ainda mais se levarmos em conta a época da empreitada, em pleno auge do rock "cabeça" e politizado. Nem preciso dizer que a crítica caiu matando.
Bom, mas vamos lá, depois desse período todo de "escavações" já sinto-me autorizado a dar meus pitacos aos nobres leitores desse espaço, indicando e contra-indicando os "bolachões" dessa turma:

Wild Life (1971): A estréia da banda foi bem fraquinha, com um disco que cheira às "sobras" do "RAM", um dos melhores trabalhos solo do Macca junto com a Linda. Eu destacaria a faixa "For Tomorrow" como algo um pouco acima da média, o resto é um punhado de músicas "sem-sal" que tentavam passar um clima meio "bicho-grilo sofisticado" que não colou. A banda tentou gravar a maioria das músicas em uma tomada só, pra dar a impressão de frescor e energia do som ao vivo, só que o tiro saiu pela culatra. Em vez de ajudar, atrapalhou um álbum já carente de bom material.
Veredicto: não recomendado.

Red Rose Speedway (1973): 4 em cada 5 fãs do Paul McCartney idolatram esse disco como um dos melhores da carreira dele. Já vi grandes músicos profissionais falando bem também. Eu sinceramente não consegui gostar tanto assim. Não é um álbum ruim, mas também não pode ser chamado de um grande álbum. De qualquer maneira, já podemos encontrar ali os sinais do que seria o belíssimo trabalho do disco seguinte, embora tudo pareça muito "arrastado" e preguiçoso. Acho que poderíamos classificá-lo como um "álbum laboratório", daqueles que todo grande músico/banda possui na sua discografia. Os destaques vão pras também sobras do "RAM" "Big Barn Bed" e "Little Lamb Dragonfly", a enérgica e vibrante "Get On The Right Thing" (minha favorita), a curtíssima e singela "Single Pigeon" e obviamente pra clássica "My Love". O melhor dessa época fica por conta dos grandes singles editados, como "Live and Let Die", "C Moon", e "Hi, Hi, Hi" (posteriormente foram adicionados ao álbum como bônus, com exceção do primeiro).
Veredicto: passável.

Band on the Run (1973): Bom, desse aqui eu nem preciso falar muito, só tem coisa de primeira linha do começo ao fim. Embora os Wings tenham se reduzido a um trio (Paul, Linda e Denny Laine, o chamado "núcleo duro"), eles se superaram e gravaram um dos melhores álbuns pop de todos os tempos. Não tem erro: "Band on the Run", "Jet", "Bluebird", "Mrs. Vandebilt", "Let me roll it", "Mamunia", "No Words", "Picasso´s Last Words (Drink to me)", "Nineteen Hundred and Eighty-Five", mais "Helen Wheels" e "Country Dreamer" (singles editados posteriormente como faixas-bônus), todas são primorosas e belíssimas. Esse disco também é mais uma prova da velha especulação (confirmada por John Lennon) de que Sir Paul McCartney "rende mais" e produz grandes pérolas sonoras quando está sobre pressão. Mesmo involuntariamente, esse é o grande "conceito" que ronda o álbum, uma banda "fugindo" de tudo e todos, em especial dos críticos que cobravam um grande disco à altura de um beatle. Pra se ter uma idéia do desespero da banda, o disco foi gravado num estúdio da EMI na Nigéria.
Veredicto: recomendadíssimo, e com louvor. \o/

Venus and Mars (1975): Mesmo com a dificuldade de editar um álbum na mesma altura do antecessor, eles conseguiram "ejetar" um belo trabalho. Com certeza, o disco mais divertido dos Wings (aqui de volta como um quinteto). Meio que uma sátira ao "rock farofa" e ao mesmo tempo uma ode à diversão dos grandes concertos de rock, entremeado com uma bela safra de "silly love songs" com a marca registrado do "Macca", é um álbum delicioso de se ouvir, gira bem do começo ao fim. Junto com o "At the Speed of Sound", podemos classificá-lo como um trabalho clássico da banda, com formação fixa completa (cada um tocando - e dando características próprias - a sua parte; o que é um acontecimento e tanto em se tratando de Wings). O disco é bem regular nas canções, o que elimina grandes destaques, mas podemos citar o medley-título "Venus and Mars/Rock Show", a singela e bela "Love in Song", a "grudenta" "Letting Go", a bluseira "Call Me Back Again", e o clássico pop "Listen to What the Man Said" (a melhor delas).
Veredicto: recomendado.

Wings at the Speed of Sound (1976): Feito no mesmo esquema do "Venus and Mars" (aliás, foi gravado durante a turnê desse disco), todo mundo mostra a cara e participa, até a Linda McCartney assume o vocal principal (e canta muito mal por sinal). Porém, ainda tudo sobre a batuta do "papai smurf" beatle. O álbum carrega duas das melhores canções pós-beatles do "Macca" - "Let´em In" e "Silly Love Songs" (essa última um divertido "contra-ataque" aos críticos musicais). Além dessas, podemos destacar a potente "Beware My Love", e as gostosinhas "She´s My Baby", "San Ferry Ane" e "Sally G" (essa última como single - bônus).
Veredicto: recomendado.

London Town (1978): A banda mais uma vez reduzida a trio. É o disco mais suave dos Wings e levemente melancólico. Gosto dele, possui uma boa seqüencia de canções agradáveis e bem construídas. É o que melhor lembra a futura retomada da carreira solo do ex-beatle. Além disso, o álbum carrega a deliciosa faixa-título "London Town" e o maior "hit" da banda, a clássica folk-escocesa "Mull of Kintyre" (single - bônus).
Veredicto: recomendado.

Back to the Egg (1979): Último álbum da banda, totalmente "fim de festa" e com aquele climão de começo de ressaca. Acho que é o único petardo da discografia em que eu não consegui gostar de nenhuma música. Em que pese a participação de ilustres convidados, como David Gilmour (Pink Floyd) e Pete Townshend (The Who). Um tempo depois a banda saiu em turnê e foi tocar no Japão, onde o "Macca" foi preso por porte de maconha. Aí fudeu. Acabou-se o que já estava pra acabar-se.
Veredicto: não recomendado.




